26 de Fevereiro, 2009
Uma dieta hiperlipídica só pode ser recomendada pelo Diabo, ou como a indústria alimentar demoniza a ciência em favor dos seus interesses económicos
Autor: O Primitivo. Categoria: Saúde
Vídeo: Dieta saudável. Animação.
Uma gordurinha boa com’ó Diabo
O filminho acima demonstra que as gorduras são uma coisa dos Diabos! Quem o diz é próprio bicho lá das profundezas, que todos querem ver pelas costas: "Se tem gordura é porque é bom. Tem que ter uma capa amarela e grossa. É a gordura, é na gordura que tá o gosto! É na gordura". E acrescenta que tem de se usar "manteiga, nada de margarina, manteiga". E também diz que "se Deus fez algo que presta foi inventar o porco", razão pela qual as frituras têm de ser em "banha, a coisa tem de ser frita é na banha".
Ora, serão estas coisas assim tão letais quanto nos quererão fazer parecer as modernas autoridades de saúde? Será que se pegarmos nos mesmos dados que o Dr. Ancel Keys utilizou, em 1953, e que deram origem e suportam, até à actualidade, a sua falhada hipótese lipídica, e também a florescente indústria das estatinas, não conseguiremos justificar, em nome da verdade científica, exactamente o contrário, ou seja, que uma dieta hiperlipídica é efectivamente saudável, porque aumenta a longevidade humana e diminui substancialmente o risco de doença cardiovascular? Pois bem, foi justamente isso que Petro Dobromylskyj, autor do Hiperlipídico, fez e publicou aqui.
Interessante, sem dúvida, mas nada de surpreendente tendo em conta que, como todos já sabemos, à excepção dos modernos nutricionistas, que uma dieta de baixo valor em hidratos de carbono, o que equivale a dizer com maiores cargas lipídica e proteica, estando mais de acordo com o nosso perfil biológico, proporciona melhor controlo da glucose, menos insulina, menos triglicéridos e LDL, ou seja, melhor perfil lipídico, menos apetite/maior saciedade, etc. Uma dieta low-carb possibilita igualmente menores HbA1C e por isso maior longevidade, de acordo com o maior estudo deste género e que pode ser lido aqui. Mas algum médico ou nutricionista moderno liga a isto? Em Portugal, no tratamento da diabetes ainda nem sequer estamos a seguir uma DBVHC. Até quando? E estamos à espera de quê?
Mas enfim, apesar de já haver inúmeros estudos a demonstrarem as vantagens de dietas primitivas pré-agrícolas e de dietas tradicionais iguais à da nossa avozinha, com as quais evoluímos durante milhões, milhares ou, pelo menos, centenas de anos, ainda nos querem convencer que as dietas "saudáveis" pós-modernas, transbordantes de cereais refinados, lacticínios e óleos vegetais "saudáveis" são as das pirâmides alimentares, apesar destes nutrientes conduzirem a dietas pró-inflamatórias, hiperglicémicas e insulinémicas. Mas o que é que isso interessa?
A propósito de pirâmides e rodas alimentares, e quem já leu algo deste blogue sabe que as mesmas são tudo menos saudáveis, há um artigo extraordinário do Dr. Yoni Freedhoff, médico bariátrico no Canadá, que explica passo por passo como se constrói uma pirâmide alimentar à medida dos lóbies da indústria, ou seja, recheados de cereais "saudáveis", de lacticínios, de óleos vegetais, pão branco, etc., portanto de alimentos totalmente estranhos à nossa genética e que, hoje sabemos, são causadores de inúmeras doenças auto-imunes. Veja a explicação completa aqui, algo de dramático e, ao mesmo tempo, hilariante.
Os lóbies da indústria alimentar vão à escola
Vídeo: The Food Lobby Goes to School.
Você imaginava que as pirâmides eram construída assim "à papo-seco", ao sabor dos interesses económicos de meia-dúzia de corporações, ou estava convencido que a ciência da nutrição, a bioquímica, a endocrinologia ou a fisiologia tinham alguma palavra no que delas entra e sai, à excepção da pirâmide alimentar dos Chispes e Couratos pois claro? Qual quê, desiluda-se, a ciência é quase sempre um convidado de segunda categoria nestas coisas, os estudos científicos "inconvenientes" vão para o lixo e quem decide são os lóbies.
Trata-se aqui portanto de decisões políticas, não tenha qualquer dúvida. Na pirâmide alimentar do Canadá, por exemplo, que não é muito diferente da portuguesa, os lóbies tiveram tanto sucesso em lá colocar os seus produtos que até se recomenda o consumo de menos vegetais e fruta, sendo que 40% dos "vegetais" a consumir são batatas e muitas delas fritas. É extraordinário ver como estas coisas funcionam, explicadas por quem conhece o sistema por dentro, neste caso um médico bariátrico que participou em audiências na Casa dos Comuns do Canadá e que conta como 3 anos de ciência foram ignorados.
Mas voltemos às recomendações daquele pobre Diabo do primeio filme deste artigo: banha de porco? Todos sabemos que banha de porco é uma gordura muito saturada, que vai entupir as nossas artérias em pouco tempo, e causar um ataque cardíaco mais dia menos dia, certo? Mas então a banha de porco não é a gordura de eleição do povo de Okinawa, onde existe maior concentração de centenários do planeta? E não será antes a banha de porco uma gordura essencialmente mono-insaturada como o azeite?
Margarinas é que fazem bem ao coração, ou não?
Vídeo: Sat Fat Nation! - film from Triple Heart Bypass,
colocado no Youtube provavelmente pela campanha do lóbie margarineiro SatFatNation.
E as gorduras saturadas serão mesmo assim tão letais quanto querem fazer crer os lóbies das margarinas (leia-se "óleos vegetais", que é a mesma coisa), através das suas campanhas anti-manteiga como o Porque Margarina e o Sat Fat Nation? Se são então porque é que estudos de revisão como este não corroboram de todo estas ideias, até bem pelo contrário, reconhecem sérias desvantagens às dietas low-fat, como "dislipidémia aterogénica e aumento de triglicéridos"? Serão as gorduras saturadas todas iguais ou será que, por exemplo, a gordura saturada da carne, que é basicamente ácido esteárico (18:0), não tem qualquer efeito sobre os níveis de colesterol sanguíneo? E se a margarina com as suas gorduras hidrogenadas não for assim tão boa quanto isso e o seu ácido linoeico causa hipotiroidismo e obesidade? Não haja dúvidas, manteiga é um alimento verdadeiro e margarina é uma "junk food" da civilização que promove doença cardíaca!
E se se der o caso de uma dieta rica em hidratos de carbono (os cereais refinados e amidos que constituem a base da nossa pirâmide alimentar) tiver a capacidade de produzir mais gordura saturada no nosso organismo que uma dieta rica em gorduras? Parece inverosímil, uma ideia delirante? É que a bioquímica nutricional tem destas coisas, também o nosso fígado é capaz de transformar muitas coisas noutras, e por isso não assuma que se existe gordura "saturada" em torno de um coração a ser operado (até prova em contrário, para mim o vídeo acima é uma fraude porque não tem qualquer credibilidade cientifica) ela foi ingerida por via de gordura porque pode ser exactamente o contrário. Uma dieta low-fat pode perfeitamente ter conduzido a esta situação!
E não, você não precisa de acreditar no que estou a dizer. Olhe para o que vários cientistas estão a dizer: por exemplo, oiça esta entrevista com o Dr. Loren Cordain (excelente entrevista, recomendada). Há muita gente que já descobriu que as recomendações nutricionais devem partir de uma base evolucionária e ter em consideração a bioquímica, e por isso serem mais moderadas em HC modernos/hiperglicémicos, à excepção das autoridades de saúde modernas, pois claro.
Em suma, com toda estás campanhas de desinformação, não estaremos somente a desviar a questão do que é comprovadamente mortal para o ser humano, os níveis elevados de açúcar e insulina proporcionados pelos "saudáveis" cereais refinados e amidos, xaropes de frutose de milho, etc., fazendo exactamente aquilo que os lóbies atrás referidos pretendem, como por exemplo demonizar as gorduras saturadas, que aliás sempre consumimos livremente durante o nosso percurso evolucionário?
Saturated fats: what dietary intake?
J Bruce German and Cora J DillardPublic health recommendations for the US population in 1977 were to reduce fat intake to as low as 30% of calories to lower the incidence of coronary artery disease. These recommendations resulted in a compositional shift in food materials throughout the agricultural industry, and the fractional content of fats was replaced principally with carbohydrates. Subsequently, high-carbohydrate diets were recognized as contributing to the lipoprotein pattern that characterizes atherogenic dyslipidemia and hypertriacylglycerolemia. The rising incidences of metabolic syndrome and obesity are becoming common themes in the literature. Current recommendations are to keep saturated fatty acid, trans fatty acid, and cholesterol intakes as low as possible while consuming a nutritionally adequate diet. In the face of such recommendations, the agricultural industry is shifting food composition toward lower proportions of all saturated fatty acids. To date, no lower safe limit of specific saturated fatty acid intakes has been identified. This review summarizes research findings and observations on the disparate functions of saturated fatty acids and seeks to bring a more quantitative balance to the debate on dietary saturated fat. Whether a finite quantity of specific dietary saturated fatty acids actually benefits health is not yet known. Because agricultural practices to reduce saturated fat will require a prolonged and concerted effort, and because the world is moving toward more individualized dietary recommendations, should the steps to decrease saturated fatty acids to as low as agriculturally possible not wait until evidence clearly indicates which amounts and types of saturated fatty acids are optimal?
Duas sugestões saudáveis e gratuitas
Para terminar, depois destas linhas pouco animadoras, deixo-lhe duas sugestões que são os melhores remédios para curar toda e qualquer doença (mas não faça isto sem a aprovação do seu médico): 1) ande a pé, saia do sofá para andar a pé, pelo menos 1 hora por dia e 2) nestes dias de primavera, vá para a praia e apanhe sol, sem protector solar, sem chapéu e sem camisa e/ou calças, cerca de 20 minutos/dia, para repor os seus níveis de vitamina D.
Mas e o risco de cancro de pele pergunta você? Sim, sem dúvida, a deficiência de vitamina D, proporcionada pelos "saudáveis" protectores solares, pode estar a contribuir para o aumento de cancro, de inúmeros tipos de cancro. Por outras palavras e para falar sem ironias sobre este assunto muito sério, não é só o excesso de exposição solar que pode causar cancro, também a sua deficiência o parece promover. Com tanta contra-informação, até parece paradoxal pensar que o sol também protege do cancro não é? Mas quem mandou você acreditar na publicidade? Uma sugestão: desligue a TV e preste mais atenção à ciência…
Ligações relacionadas:
Cholesterol presentation: Between countries (Hyperlipid)
Weighty Matters: Canada’s Food Guide to Unhealthy Eating (Dr. Yoni Freedhoff)
The Paleolithic Diet (Dr. Loren Cordain)
Traditional diets (Weston A. Price Foundation)
Whole Health Source (Stephan)
Argumentos para inclusão de DBVHC no tratamento e prevenção de DT2 (Dr. Ricardo Silvestre)
Vitamin D Council (Dr. John Cannell)
SUNARC - Sunlight, Nutrition And Heath Research Center
UV Advantage (Dr. Michael Hollick)
Artigos relacionados:
The food guide pyramid: will the defects be corrected? (Ottoboni; pdf, 135 kb)
Cholesterol: Myths and Truths (Chris Masterjohn; pdf, 213 kb)
Insulin and It’s Metabolic Effects (Ron Rosedale)
How Many Carbohydrates Do You Need? (Lyle McDonald)
Protein Requirements for Strength and Power Athletes (Lyle McDonald)
Saturated fats: what dietary intake (artigo de revisão)
Saturated fat consumption in ancestral human diets (Dr. Loren Cordain)
Know your fats (Weston A. Price Foundation)